Logo que vi os episódios de “Sandman” disponíveis, dei um jeito de começar a segunda temporada dessa série que amo. Quero aqui compartilhar algumas observações com vocês, a partir de um olhar psicanalítico, sobre essa série que é cheia de imagens fantásticas, cenários que são literalmente um “sonho” e sinalizar brevemente alguns detalhes de certos diálogos que me chamaram a atenção.
Logo no primeiro episódio desta nova temporada, há uma reunião de família. Morpheus, o deus do Sonhar – ou o próprio Sonhar – , é convocado por Destino, seu irmão, a se reunirem com os outros irmãos pois há um assunto pendente que deve ser debatido.
Sendo assim, reúnem-se à mesa: Sonhar, Destino, Desespero, Delírio, Desejo e Morte. Como toda reunião familiar, há momentos que pesam o clima, ou simplesmente, vira uma “torta de climão” – pois é, como imaginaríamos que os Perpétuos também sofressem desse “mal”: o almoço de domingo em família! Destino é o irmão que tudo sabe, mas, ainda assim, não comunica suas visões de futuro. Delírio, Desespero e Morte, personificadas em figuras que remetem ao feminino, mantém uma relação mais cordial com Sonhar do que Desejo.
É interessante pois, na temporada anterior, o Sonhar vai até o reino do Desejo e o ameaça diretamente: sofrerá consequências se continuar causando interferências no campo dos sonhos. A rispidez entre ambos continua nessa temporada, demonstrada logo de início nessa reunião familiar. Desejo é uma personagem interessante, que incorpora características andróginas, e por onde passa, tem o poder de causar um certo caos – o que parece aborrecer profundamente Sonhar.
Mais um ponto extremamente interessante esse conflito entre irmãos, como a série nos traz: Sonho e Desejo são irmãos – não é assim que dizemos para aproximar as origens de certas coisas? “Fulano parece seu irmão, de tão igual!”. Porém, são irmãos que não se dão bem: há uma certa tensão na relação entre ambos.

A partir desse cenário, vamos considerar, de forma breve, alguns apontamentos que Freud já fez em “A interpretação dos sonhos”. Freud parte da ideia de que os sonhos têm sentido e função psíquica. O sonho é uma formação do inconsciente, construída a partir de desejos reprimidos — geralmente infantis — que, para não entrarem em conflito com a censura psíquica, se disfarçam por meio de mecanismos (como condensação e deslocamento – outra hora falamos disso). O desejo, nesse contexto, não é só um querer qualquer, mas algo que foi recalcado porque é incompatível com os valores e a consciência do sujeito.
Retomando o cenário de “Sandman”, o embate entre os dois irmãos revela, de forma simbólica, o que Freud apontava: Desejo precisa encontrar vias de se manifestar – o sonho seria uma dessas formas – e, por isso, parece acatar a ameaça de Sonho em não se meter onde não é chamado. No entanto, me pareceu que Desejo fingiu ter acatado – acredito que ele continuará pelas beiradas ameaçando o reino dos sonhos.
Continuando no raciocínio freudiano, desejo e sonho são codependentes, um não existe sem o outro. Sonhamos para realizarmos nossos desejos de forma indireta, pois o que nos lembramos são de imagens confusas. O sonhar é um flerte com a realização do desejo, possibilitado por meio desses mecanismos mentais e psíquicos tais como os deslocamentos, condensações, etc. Por isso, quando um desejo está em vias de ser realizado no sonho, acordamos!
Digamos que, do ponto de vista da psicanálise, os sonhos são os guardiões dos desejos.
“Os sonhos estão sempre se alterando, transformando as paisagens mais familiares em novos mundos de experiências e descobertas.” – é uma fala de Sandman.
Na clínica psicanalítica, observamos que há momentos que os pacientes podem sonhar e se lembrar dos sonhos com mais facilidade, outros momentos que o esquecimento se faz imperativo; há casos em que os indivíduos relatam não sonhar, tamanha dificuldade do psiquismo de metabolizar experiências emocionais em abstrações oníricas, o que pode, inclusive, engatilhar certas explosões psicossomáticas. Notamos, portanto, que a clínica observa uma amplitude de possibilidades com o mundo onírico de nossos pacientes e que investigá-lo é uma forma de adentrar num mundo interno pessoal extremamente intenso e rico. A série “Sandman” parece nos convidar a ampliar nosso olhar para nosso mundo subjetivo através das representações ali demonstradas.
