É possível alguém SER um diagnóstico?

Esse pequeno texto vem meio provocativo.

Outro dia eu escutei de uma psicanalista chamada Bibiana Malgarim que, questionada sobre como o psicólogo/psicanalista deveria definir seu NICHO, respondeu apontando para uma reflexão muito interessante e, diria eu, ética em termos do nosso trabalho com pessoas.

Ela respondeu que nós, profissionais desse campo, trabalhamos com SUJEITOS, inseridos num determinado contexto social e particular. Nesse sentido, uma vez que o profissional nomeia sua clínica como “clínica do TDAH”, por exemplo, ele não está lidando com PESSOAS, mas com DIAGNÓSTICOS. O que é diferente de ESPECIALIDADES clínicas – como exemplo, especializa-se na clínica de crianças, na neuropsicologia, etc., uma vez que cada especialidade exige habilidades diferentes.

Isso me lembrou um trecho de um texto do Winnicott, destacado psicanalista com uma ampla obra e prática acerca do desenvolvimento emocional. Ele acreditava que o amadurecimento ocorria de forma espiralar, ou seja, podemos ir e voltar nos processos evolutivos; as fases do desenvolvimento não são lineares, podendo ocorrer vários processos maturacionais ao mesmo tempo. Da mesma forma que a tendência do desenvolvimento humano é progredir em direção ao amadurecimento, podemos, portanto, regredir emocionalmente a depender da circunstância da vida ou das questões emocionais em jogo. Isso não obrigatoriamente configura-se como uma DOENÇA ou um PROBLEMA; muitas vezes, pode ser apenas essa maleabilidade dos processos de amadurecimento em curso.

Isso quer dizer que o diagnóstico é DINÂMICO; ele pode alterar-se ao longo do processo terapêutico.

Agora vejam suas palavras : “uma histérica pode se revelar uma esquizofrênica subjacente, uma pessoa esquizoide pode vir a ser um membro sadio de um grupo familiar doente, um obsessivo pode se revelar um depressivo.”

Reparem que, a partir dessa ideia, e juntando a provocação das palavras de Bibiana, podemos dizer que fechar um INDIVÍDUO num rótulo diagnóstico rígido, para além de parecer inadequado e talvez até um pouco superficial, também enrijece o profissional e sua prática. Afinal, se ao longo do processo devemos estar atentos às nuances que se modificaram nesse amadurecimento emocional, a necessidade do paciente vai mudar durante toda a trajetória de cuidados juntos – e muitas vezes, revelando elementos latentes que não se revelam nas primeiras sessões!

Citação retirada de: “Processos de amadurecimento e o ambiente facilitador”, editora Ubu.

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Na minha trajetória de formação, além do trabalho no consultório clínico, atualmente atuo como mestranda e pesquisadora em Psicologia do Desenvolvimento Humano e Aprendizagem no departamento de Psicologia da USP (SP) com foco principalmente nos temas relacionados ao desenvolvimento e amadurecimento emocional humano.

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