Presente na clínica?

É verdade que nos estágios obrigatórios da graduação, nós (agora, ex-alunos), já nos deparamos com situações adversas – e por adversas me refiro a situações muito comuns na clínica, mas ainda assustadoras para os terapeutas em formação.

Também é verdade que o trabalho clínico não deixa de surpreender, nesse caso, a dupla terapeuta-paciente. Aqui me refiro ao sofrimento e as formas como ele aparece, mas não deixo de lado as surpresas felizes, da maturidade, de pequenezas que também compõem esse grande mosaico do qual é feito essa artesania da clínica.

Uma dessas surpresas é a discussão, tão frequente quanto banal nessa época de ano, sobre presentear ou não os pacientes versus receber ou não os presentes dos pacientes. Digo tão frequente pois somos todos humanos – estamos imersos num universo pulsional (é assim que a Psicanálise compreende a circulação de afetos entre as pessoas) que muito nos convoca a pensar em presentear, de inúmeras formas, nessa época do ano. Por outro lado, essa justificativa de ser uma época do ano propícia para presentear deixa essa discussão banal, uma vez que na clínica psicanalítica buscamos encontrar um certo sentido nessas movimentações de afeto e trocas pulsionais. Não se trata, portanto, de presentear pura e simplesmente, como um gesto morto, amorfo e vazio. É de responsabilidade do terapeuta pensar qual o sentido, o propósito desse gesto. Considerando a máxima da clínica – CADA CASO É UM CASO – , evitamos automatismos e nos propomos a ponderar o que essa comunicação – seja receber, seja presentear – COMUNICA a cada caso.





Sugiro uma leitura valorosa, sobre as diferenças entre “objeto” e “coisa” – enquanto um é objeto concreto sem vida, o outro é carregado de simbolismos e significação afetiva – que Gilberto Safra propõe em seu livro “A po-ética na clínica contemporânea” . Neste capítulo em especial, ele nos traz inclusive um caso de uma terapeuta que compra uma panela para sua paciente – vale a leitura para pensarmos sobre essa circulação dar-receber.

Se essas questões passaram sem reflexão neste ano, é verdade que a clínica é dinâmica e viva, logo, no ano que vem ou em algum momento mais oportuno aparecerá esse tema para ser trabalhado.

***Porém, que fique claro que essa realidade não configura um aval para sairmos cometendo faltas éticas, ou uma licença para escapar do nosso necessário enquadre [ético e] psicanalítico.

Além disso, sempre podemos considerar buscar supervisão para nos ajudar a pensar a particularidade de cada caso.

Editado em 17/12/2024, 18h23.

Na minha trajetória de formação, além do trabalho no consultório clínico, atualmente atuo como mestranda e pesquisadora em Psicologia do Desenvolvimento Humano e Aprendizagem no departamento de Psicologia da USP (SP) com foco principalmente nos temas relacionados ao desenvolvimento e amadurecimento emocional humano.

Últimas postagens

×