Sou avessa a tratar de certos temas apenas em datas específicas por motivos de espetacularização do sofrimento e pouca efetividade, de fato, sobre o cuidado especialmente em temas que envolvem saúde. Sendo assim, compreendo que falar sobre o câncer de mama na população brasileira não é assunto reservado apenas para o mês de outubro, como percebemos nas divulgações da campanha “outubro rosa”. Por outro lado, compreendo que campanhas assim, principalmente em se tratando de políticas de saúde pública, têm um grande alcance e impacto na vida das pessoas que receberão diagnósticos e tratamentos depois de receberem informações vindas exatamente dessas campanhas.
Sabemos que a expectativa de vida, após o diagnóstico, tem sido cada vez mais promissora e de forma alguma é sentença de morte, como visto há anos, principalmente devido ao avanço nos tratamentos, medicações e procedimentos cirúrgicos. Ao mesmo tempo, porém, não se deve negligenciar o impacto EMOCIONAL e RELACIONAL que a suspeita e o diagnóstico do câncer de mama tem na vida dos pacientes.
Noto que esta é uma grande cilada da atualidade. O fato de termos em nossas mãos procedimentos hiper-modernos e recursos avançados no tratamento de certas doenças parece criar uma ilusão, para muitas pessoas, que não haverá impacto, nem prejuízo e nem efeitos EMOCIONAIS e RELACIONAIS de uma notícia dessa, nem para si enquanto paciente, nem em sua família ou nas relações mais próximas. O que não é real. Ao demorar reconhecer e aceitar que tal notícia impacta sim a vida afetiva do paciente, muitas vezes as pessoas chegam ao consultório para acompanhamento psicoterapêutico ou análise já com quadros de ansiedade, depressão, etc, muito avançados, e em extremo sofrimento.
No caso do câncer de mama, para além de todas as implicações com este diagnóstico, temos ainda o fato de que é acometida uma região do corpo que muito comumente está relacionada com a constituição da feminilidade e com sensações de fertilidade – os seios. Especialmente nos casos em que a retirada das mamas se faz necessária, um olhar cuidadoso e empático é ainda mais necessário no acompanhamento das (dos) pacientes que estejam passando por esse processo.
Que o avanço da medicina não nos roube a experiência de um bom cuidado!
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